Archive for June, 2008

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A Promessa Não Cumprida

Entre as promessas da chamada Web 2.0 está a premissa de levar o conteúdo aonde o leitor está. Afinal, há algum tempo o usuário aprendeu que pode acompanhar as informações de sua preferência longe da interface habitual dos sites.

Smartphones, celulares e agregadores de RSS complementam a função exercida pelos navegadores - inverter a lógica e levar a informação até o usuário, e não mais o usuário até a informação. De algum modo, essa promessa foi percebida por Nicholas Negroponte em A Vida Digital, mas esse é um outro papo

Voltando ao tema, muito dessa promessa baseia-se nos webfeeds - serviço que permite ao usuário assinar um determinado canal e receber as notícias no momento seguinte à publicação. Legal. É o jornal chegando na casa do assinante, que não precisa mais ir até a banca para ter o resumo das principais notícias do dia anterior.

Explorando o vácuo
Apesar de cumprirem seu papel inicial, os feeds dos portais mapeados pelo Olympicks ainda têm espaço para serem mais bem aproveitados. Sua potencialidade está à prova de ser explorada.

Quer um exemplo? Entre os parâmetros que podem ser configurados no XML - perdão, mas é preciso falar da linguagem, apesar de ser um papo muitas vezes entediante - está o que determina a exata localização do que o conteúdo se refere.

Quem vem utilizando essa possibilidade é a versão online do The Gazette, que trabalha as informações que publica a partir do georreferenciamento. Um mapa mostras as referencias espaciais em que o fato ocorreu. Há ainda cruzamentos interessantes, com o GeoRSS e o GeoURL - ambas permitiriam um outro aproveitamento dos dados.

Uma nova tendência
O exemplo mais bem acabado do modo como o RSS georreferenciado pode ser explorado é o site outside.in, que mapeia notícias publicadas em sites jornalísticos, posts em blogs e outros conteúdos em mais de 11 mil cidades norte-americanas.

A imagem mostra o mapa com as referências dos conteúdos publicados em uma vizinhança de Los Angeles. A partir desta solução, a navegação passa a ser espacial - que agrega o que se produziu sobre aquela localidade dentro dessa referência geográfica - e não mais fragmentada em blogs ou sites de informação.

Todo esse esforço é para apresentar ao leitor um novo modo de navegar pelo que é escrito/produzido localmente, a partir de um mapa.  Sai, portanto, a referencia textual e entra a visual, com força.

(Aliás, o outside.in foi uma das referências da equipe do Olympicks para criar uma versão segmentada sobre os Jogos.)

Muito prazer, tag
Nenhum dos sites monitorados pela versão em português de Olympicks consegue fazer esse cruzamento. Aliás, era intenção do site apresentar as informações publicadas pelos grandes portais em um formato georreferenciado, mas a não apresentação desses parâmetros dificultou nossos esforços.

Já que estamos falando sobre Web 2.0, um outro aspecto deve ser mencionado. Aquele método duro de indexação de conteúdo chamado taxonomia perdeu espaço para o modo cotidiano que as pessoas têm de classificar as coisas.

Trocando em miúdos, trocam-se palavras que não fazem parte desse contexto por tags - que servem para fazer esse novo modo de indexação. As tags podem ser indicadas dentro do XML dos feeds dos sites, mas - mais uma vez - nenhum dos portais monitorados pelo Olympicks atentou-se para esse fato.

Quando o fez, apesar criou uma única tag, como o Terra com a etiqueta Pequim 2008. Muito pouco. O conteúdo é bem mais diversificado que isso - e o usuário sabe disso. O hotsite do O Estado de S.Paulo trabalha melhor as tags, entretanto esbarrou em uma outra dificuldade - não oferecer um RSS específico sobre os Jogos Olímpicos de Pequim.

Não se pode ter tudo nessa vida.

Interatividade Pra Quê?

Ao realizar as análises dos conteúdos que estão sendo monitorados pelo Olympicks, me deparei com a precária interatividade oferecida a quem utiliza os grandes portais para se informar sobre os Jogos de Pequim.

Em um hotsite perecível como um especial de Olímpidas, o que espera-se são conteúdos variados de um veículo para o outro e materiais ou ferramentas interessantes que façam as pessoas terem vontade de acompanhar esse acontecimento através da Web.

Entretanto, a realidade é mais dura que a idealização.

A competição é em Pequim ou aqui?
Quatro dos cinco grandes portais brasileiros apresentam a mesma estrutura para repassar informação: notícias, vídeos, fotos, guia sobre Pequim, histórico das Olimpíadas. Tudo em um formato mais convencional.

Além de conterem as mesmas seções - e muitas vezes o mesmo conteúdo -, os sites temáticos não pensam no usuário final. Parece que o objetivo não é inovar ou oferecer conteúdo com qualidade, mas, sim, tentar melhorar o trabalho que outro fez. É uma competição entre eles, e não a busca por informar melhor o usuário.

O único que não apresenta um formato tão tradicional é o site da ESPN, que inovou no layout trazendo conteúdo com aparência mais próxima das tendências mais contemporâneas da Web. Isso em um primeiro momento nos leva a imaginar que a relação que eles querem criar com o usuário é a mais atual possível, ou seja, oferecer um espaço para a contribuição externa. Porém não é o que se observa.

Formato clássico, porém nada inovador
A ESPN, com todo conteúdo que produz, oferece a quem acessa a informação apenas uma enquete como forma de participação. Seus concorrentes oferecem um pouco a mais - mesmo que com formato “padrão”.

Na seção de Vídeos, tanto UOL como clic RBS apresentam o consagrado formato YouTube em sua estrutura. Apesar de não inovarem na aparência, oferecem espaço para o usuário comentar, compartilhar os vídeos e criar rankings.

Em Históricos, UOL e clic RBS são os que oferecem novamente um conteúdo mais diferenciado ao incluírem em suas matérias infográficos básicos que permitem uma navegação e leitura do conteúdo mais dinâmico.

Mas a estrutura dos textos dessa área continua muito pouco explorada, pois oferecem apenas textos com algumas imagens. Enquanto poderia ser uma das áreas mais exploradas, através de vídeos, criação de infográficos interativos em que as pessoas pudessem controlar ou adicionar alguma informação, estimular a participação do usuário contando uma história que tenha vivido em alguma olimpíada.

O papel da contribuição
Todos portais apresentam galerias com imagens. Entretanto, apresentam as mesmas imagens, não importa qual site o usuário acesse. A explicação é simples: as fontes são as agências de notícias.

Como sair dessa armadilha? Simples. Seria interessante como forma de interação que as pessoas pudessem acrescentar conteúdo produzido por elas mesmas - o que iria enriquecer os materias já coletados e estimular a participação e a volta desse usuário ao portal.

As notícias apresentadas em todos os portais possuem a mesma estrutura e sem espaço para comentários - com exceção do clicRBS. Não parece haver empenho em modificar, em transgredir esse modo de construção da informação. Se o formato atual utilizado traz resultados, então porque não complementar essas notícias com as possibilidades que a plataforma web nos oferece?

Qual a relação que esses portais querem estabelecer com seus usuários? Ser uma página inicial em um browser em que ele consulta quando a chamada na capa o interessou, mas sai em seguida que essa necessidade foi satisfeita ou estimular o usuário a entrar e ficar navegando absorvendo o conteúdo oferecido e voltar sempre que quiser ver algo interessante e de destaque?

Fica a escolha. Tanto para os portais como para o usuário.

A Tocha Não é A Mensagem

Em tempos pré-olímpicos (afinal estamos a menos de dois meses do início dos jogos), é interessante observar como as diferentes fontes que estão sendo mapeadas pelo Olympicks se comportam frente a um mesmo fato noticioso.

Hoje foi a vez da tocha olímpica - símbolo que suscitou protestos em diversos lugares do mundo - passar pela cidade de Shangri-la, que serviu de inspiração para o livro de James Hilton, de 1933.

Analisando as fontes de notícias que alimentam o Olympicks, é possível identificar dois tipos de abordagem - ou dois tipos e um subtipo. Explico. A primeira abordagem identificada é o pronunciamento feito pelo Dalai Lama, pedindo calma e respeito à passagem da tocha olímpica, notícia esta encontrada em todas as fontes mapeadas (relembrando: UOL, Terra, Globo Esporte, ESPN, clicRBS e JB Online).

Outro viés é justamente a passagem da tocha pela cidade de Shangri-la. Ok, temos duas abordagens, mas e o que seria o subtipo?

Bem, acontece que dois portais -Terra e clicRBS - deram um enfoque brasileiro, literalmente, a este último fato mencionado. Em razão da participação de um brasileiro (Mateus Laurito del Conte) no revezamento da tocha em Shangri-la, Terra e clicRBS optaram por valorizar o representante tupiniquim em suas notícias.

Não por acaso, ambos mencionam a EFE como fonte da notícia publicada. Globo Esporte e UOL, com textos muito parecidos, não mencionam del Conte em suas notícias, enquanto ESPN e JBOnline não publicaram notícias específicas sobre a tocha em Shangri-la.

Mesma fonte, mesmo texto. E o complemento?
Partindo para a análise do pedido de respeito à tocha feito pelo Dalai Lama, vemos todos os portais publicando a respeito. UOL, Terra e JB Online mencionam a Agence France-Presse como fonte de suas notícias e publicaram exatamente o mesmo texto.

Adicionar conteúdos, fotos, vídeos, mapas, reportagens, infográficos? Não, obrigado. Aliás, parece ter sido a resposta adotada por quase todas as fontes mapeadas pelo Olympicks, em resposta à pergunta do meu monólogo.

Ainda que existam esforços quanto a construção de infográficos sobre os locais de competição e rota da tocha, publicação de vídeos e resgates históricos de outras olimpíadas, me parece que falta perspicácia - ou mesmo vontade - de relacionar esses conteúdos, muitas vezes não muito bons, às notícias, ao invés de deixá-los estagnados em uma seção/submenu específica(o).

Há o que acrescentar
Se já se teve o trabalho de eslaborar esses conteúdos para integrarem seções das páginas olímpicas dos portais, o que custa adicioná-los aos textos - óbvio que quando pertinentes - para agregar informações e melhorar a experiência de navegação e conhecimento do sujeito “usuário”? Bem difícil de entender.

Ou, ainda, será que as equipes de reportagem dos grandes portais como UOL, Terra e Globo Esporte que estão em Pequim não têm mais nada a dizer e/ou acrescentar ao que foi fornecido pelas agências de notícia?
Pode ser que tenha a ver com a relevância da notícia, é verdade. Mas, ainda assim, pelo menos mais fotografias poderiam ser utilizadas para ilustrar as notícias em complemento às caras e gestos do Dalai Lama. O Flickr tem se mostrado uma aplicação fantástica como fonte de conteúdo fotográfico. Mas, como era de se esperar, nem sinal dele.

O que compartilhar, se tudo é igual?
Aliás, agora chegamos a outro ponto, o uso de Social Media nos portais olímpicos brasileiros. Apenas UOL e Terra permitem o compartilhamento dos conteúdos através de redes sociais e de ferramentas de social bookmarking. Del.ico.us, Twitter, Techonarati, Facebook e Digg estão entre os aplicativos suportados para o compartilhamento. Porém, de nada adianta tantas ferramentas para compartilhar o link de uma notícia ou outro tipo de conteúdo se eles não forem relevantes o suficiente para estimularem essa prática.

Então, mais do que ferramentas webdoispontozeradas, acredito que os portais devem se esforçar um pouco mais em compreender as especificidades e possibilidades suportadas pelo meio em que trabalham, afim de veicular conteúdos mais consistentes, mais hipertextuais e, conseqüentemente, mais relevantes.

E você, o que pensa à respeito?

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